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SINGULARIDADES

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Dom | 09.12.18

Querida Ijeawele – Leituras 2018 – 10

A alentejana

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Chimamanda Ngozi Adichie é um nome bem conhecido quando se fala de feminismo, tudo graças à palestra, e mais tarde (mini) livro, “Todos devemos ser feministas”. Esta escritora Nigeriana tem mais um (mini) livro dedicado ao feminismo: “Querida Ijeawele- Como educar para o Feminismo”.

 

Este livro/ensaio é a versão de uma carta que a autora escreveu a uma amiga que lhe pediu conselhos sobre como criar a sua filha, Chizalum, recém-nascida, como feminista e é “uma espécie de mapa” do próprio pensamento feminista da autora. Depois de ser mãe a autora decide publicar essa carta numa espécie de ensaio, dividindo o livro em 15 sugestões. Na introdução a autora escreve: “Agora que também eu sou mãe de uma encantadora bebé, apercebo-me de como é fácil dar conselhos sobre como criar uma criança quando não estamos a defrontar-nos nós próprios com a realidade tremendamente complexa dessa tarefa. A minha amiga respondeu-me que tentaria seguir as minhas sugestões. Ao relê-las agora, como mãe, também eu estou decidida a tentar.”

 

1 – “Sê uma pessoa inteira. Ser mãe é uma dádiva maravilhosa, mas não te definas unicamente por esse estatuto. Sê uma pessoa completa. A tua filha beneficiará disso.” Ser mãe é alguém que não se deve definir apenas como Mãe. Ter vida própria, interesses, trabalho (Se assim o decidir e a vida permitir) permite uma saudável relação consigo e consequentemente com os filhos. Ser uma pessoa inteira, completa não é necessariamente a mãe perfeita. É a mãe que faz o que pode e o que acha que é melhor para os seus filhos, permitindo-se errar.

 

2 – “Façam-no juntos”. Mãe e pai, façam-no (eduquem o filho) juntos. Sem “ele ajuda”. Criar um filho é responsabilidade de ambos os pais. “ …desvia o olhar, controla esse teu perfeccionismo (…) Partilha os cuidados da bebé igualmente. ‘Igualmente’, claro depende de ambos e terão de o decidir prestando igual atenção às necessidades de cada um. Não tem de significar literalmente metade para cada um ou um registo diário de quem faz o quê, mas saberás quando o trabalho está a ser igualmente partilhado. Saberá pela tua ausência de ressentimento. Porque quando existe verdadeira igualdade o ressentimento não existe.”

 

3 – “Ensina aos teus filhos que a ideia de ‘papéis para cada género’ é uma tolice. Nunca lhe digas que ela devia ou não devia fazer alguma coisa porque é menina. ‘Porque é menina’ nunca é razão para nada. Jamais.

 

4 – “Ou se acredita na plena igualdade dos homens e das mulheres ou não.” A autora diz para se ter cuidado com o que ela chama de “Feminismo linha zero, que é a ideia da igualdade condicional das mulheres.” Dá um exemplo interessante, o modo como um jornal britânico progressista descreveu o marido da primeira-ministra britânica, Theresa May: “Philip May é conhecido na politica como um homem que se mantém nos bastidores e permite que a sua mulher, Theresa, brilhe’. Permite.” Se fosse ao contrário, ele o primeiro ministro, o provável era que ouvíssemos que a sua mulher “o apoiava nos bastidores, que estava por trás dele, ou ao seu lado, mas nunca ouviríamos dizer que ela lhe permitia que brilhasse. (…) Permitir tem a ver com poder.”

 

5 – “Ensina a tua filha a ler, ensina-a agostar de livros. Os livros vão ajudá-las a compreender e a questionar o mundo”.

 

6 – “Ensina-a a questionar a linguagem. A língua é o repositório dos nossos preconceitos, das nossas crenças, das nossas pressuposições. Para lho ensinares, no entanto, terás de questionar a tua própria linguagem. (…) Ensina-lhe que se criticares X nas mulheres mas não criticares X nos homens, não tens nenhum problema com o tal X, o que tens é problema com mulheres.”

 

7 – “Um casamento pode ser feliz ou infeliz, mas não é uma forma de realização pessoal. (…) Como condicionamos as meninas a aspirarem ao casamento e não condicionamos os rapazes a aspirarem ao casamento existe logo à partida um terrível desequilíbrio”. A necessidade de casar é diferente para uma mulher europeia, estamos a falar de culturas diferentes, mas ainda assim homens e mulheres têm diferentes percepções sobre o casamento e o papel de cada um.

 

8 – “Ensina a tua filha a rejeitar o desejo de agradar. O dever dela não é tornar-se alguém de quem se gosta, o seu dever é ser uma pessoa em pleno (…) Temos um mundo cheio de mulheres que não são capazes de respirar livremente por serem condicionadas há muito tempo a fazerem tudo por tudo para agradarem.”

 

9 – “Dá à Chizalum um sentido de identidade.” Neste capitulo / sugestão Chimamanda refere a importância de se reconhecer como sendo africana, reconhecer a sua cultura, aceitando o que é belo e rejeitando as partes que não são.

 

10 – “Sê deliberada na forma como abordas a questão da aparência. (…) Se ela gostar de maquilhagem, deixa-a usá-la. Se gostar de moda, deixa-a vestir-se à moda. Mas se ela não gostar nem de uma coisa nem de outra, deixa-a em paz. Não penses que criá-la como feminista significa força-la a rejeitar a feminilidade. O feminismo e a feminilidade não se excluem mutuamente. É misógino sugerir que sim. As mulheres aprenderam ter sentimentos de vergonha e de culpa em relação a interesses que são vistos como tradicionalmente femininos, como a moda e a maquilhagem. Mas a nossa sociedade não espera que os homens sintam vergonha em relação a certos interesses geralmente considerados masculinos – carros desportivos, certos desportos profissionais. (…) Um homem bem vestido não se preocupa que, por estar vem bestido, possam ser tiradas certas ilações sobre a sua inteligência, a sua capacidade ou a sua seriedade. (…) Nunca, jamais relaciones a aparência com moralidade.”

 

11 – “Ensina-a a questionar o uso selectivo da biologia que é feito pela nossa cultura como ‘razões’ para certas normas sociais. (…) Usamos a biologia para explicar a promiscuidade masculina, mas não para explicar a promiscuidade feminina. (…) A biologia é uma matéria interessante e fascinante, mas nunca deve aceitá-la como justificação para qualquer norma social. Porque as normas sociais são criadas por seres humanos e não há nenhuma norma social que não possa ser alterada.”

 

12 – “Fala-lhe sobre sexo, e começa cedo. (…) Em todas as culturas do mundo, a sexualidade das mulheres tem a ver com vergonha. Até mesmo as culturas que esperam das mulheres que sejam sexy – como muitas no mundo ocidental – continuam a não esperar que sejam sexuais. “

 

13 – “Ensina-lhe que o amor não é só dar, mas também receber. Isto é importante , porque damos às raparigas pistas subtis – ensinamos-lhes que uma grande componente da sua capacidade de amar é a sua capacidade de sacrificarem os seus eu. Não ensinamos isso aos rapazes. Ensina-lhe que para amar ela se deve dar emocionalmente, mas também dever esperar que deem por ela. “

 

14 – A misoginia feminina existe e evitar reconhecê-la é criar oportunidades desnecessárias para que as pessoas antifeministas tentem desacreditar o feminismo. Refiro-me ao tipo de pessoas antifeministas que apontam encantadas exemplos de mulheres que dizem “não sou feminista” como se o facto de uma pessoa que nasceu com vagina fazer essa declaração desacreditasse automaticamente o feminismo. Que uma mulher diga que não é feminista não diminui a necessidade do feminismo. Quando muito , faz-nos ver a extensão do problema, o alcance da sociedade patriarcal. Mostra-nos também que nem todas as mulheres são feministas e nem todos os homens são misóginos.”

 

15 – “Informa-a sobre a diferença. Torna a diferença comum. Torna a diferença normal. Ensina-a a não atribuir valor à diferença . E a razão para o fazeres não é para ser justa ou bondosa, mas meramente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade do nosso mundo. E informando-a sobre a diferença estarás a prepará-la para sobreviver num mundo de diversidade.”